Pronomes pessoais em espanhol: quando usar tú, usted, vos e vosotros
Tú, usted, vos ou vosotros? O guia completo dos pronomes pessoais em espanhol, com as tabelas e os pontos exatos em que o português faz o brasileiro escorregar.
Você aprendeu que “você” em espanhol é tú. Aí desembarca em Buenos Aires, o garçom chega e pergunta: “¿Vos qué querés tomar?” — e nada disso estava no seu material de estudo.Os pronomes pessoais são a primeira coisa que se aprende em espanhol e uma das últimas que se domina de verdade. O motivo é simples: o português entrega 70% do caminho de graça e cobra caro pelos 30% restantes. Este guia resolve os dois lados — as tabelas completas e, principalmente, os pontos exatos em que o português faz o brasileiro escorregar.
Nível: A2–B1 (básico a intermediário) · Leitura: 8 minutos
A regra em uma frase
O espanhol tem duas famílias de pronomes pessoais: os tônicos, que funcionam como sujeito ou vêm depois de preposição (yo, tú, mí, contigo), e os átonos, que grudam no verbo como complemento (me, te, lo, le, se). Quase todo erro de brasileiro nasce de misturar as duas famílias ou de importar a colocação do português.
Os pronomes sujeito
| Pessoa | Singular | Plural |
|---|---|---|
| 1ª | yo | nosotros / nosotras |
| 2ª informal | tú (ou vos) | vosotros / vosotras (só na Espanha) |
| 2ª formal | usted | ustedes |
| 3ª | él / ella | ellos / ellas |
Três detalhes que o português não prepara você para ver:
- O feminino existe no plural. Um grupo só de mulheres é nosotras, vosotras, ellas. Em português, “nós” serve para todo mundo.
- Usted leva verbo na terceira pessoa, exatamente como o “você” do português: usted tiene, e não usted tienes.
- Existe um pronome neutro, ello, usado para retomar uma ideia inteira (Todo ello me parece raro). É raro e formal — reconheça, mas não force.
O problema do “você”: tú, usted ou vos?
Aqui mora a confusão número um. Em português, “você” virou neutro e serve para quase todo mundo. Em espanhol, essa escolha carrega informação social, e errar soa ou íntimo demais, ou distante demais.
| Forma | Quando usar | Onde |
|---|---|---|
| tú | Amigos, família, colegas, gente da sua idade | Espanha, México, Colômbia, Peru, Caribe e maior parte do mundo hispânico |
| vos | Mesmo registro informal do tú, com conjugação própria | Argentina, Uruguai e Paraguai (uso geral); América Central e regiões da Colômbia, Venezuela, Chile e Bolívia |
| usted | Desconhecidos, clientes, pessoas mais velhas, contexto profissional | Em todo lugar — mas na Colômbia e na Costa Rica o usted aparece até entre amigos |
💡 Dica rápida
Na dúvida, comece com usted. Ser formal demais soa educado; ser informal demais soa atrevido. E preste atenção: quando o outro te trata por tú, é o sinal para você retribuir.
Vosotros ou ustedes?
Essa é a diferença mais visível entre a Espanha e a América Latina, e ela é fácil de resolver:
- Na Espanha existem os dois: vosotros para um grupo de amigos (¿Vosotros venís?) e ustedes para um grupo formal.
- Na América Latina, vosotros simplesmente não se usa. Ustedes cobre tudo, formal e informal. Um mexicano fala ¿Ustedes vienen? com os melhores amigos.
Se o seu objetivo é a América Latina — e para brasileiro costuma ser —, você pode reconhecer vosotros na leitura e nunca produzir a forma. Ninguém vai sentir falta.
Vos: o pronome que quase nenhum curso ensina
São mais de 100 milhões de falantes usando vos no dia a dia. Ignorá-lo é ficar surdo para a Argentina inteira. A boa notícia: a conjugação do presente é regular e quase mecânica — pegue o infinitivo, troque o -r final por -s e ponha o acento na última sílaba.
| Verbo | tú | vos | Imperativo com vos |
|---|---|---|---|
| hablar | hablas | hablás | hablá |
| comer | comes | comés | comé |
| vivir | vives | vivís | viví |
| tener | tienes | tenés | tené |
| ser | eres | sos | sé |
Repare que os verbos irregulares do tú ficam regulares com vos: tú tienes mas vos tenés, tú puedes mas vos podés. Na prática, o voseo é mais fácil. E sim, é norma culta: “Vos sos mi amigo” se escreve em jornal argentino sem nenhum problema.
Depois de preposição: mí, ti, conmigo, contigo
Quando o pronome vem depois de preposição, yo vira mí e tú vira ti. As outras pessoas não mudam.
- Este regalo es para mí. (Este presente é para mim.)
- No puedo vivir sin ti. (Não posso viver sem você.)
- Hablaron de nosotros. (Falaram de nós.)
Com a preposição con, as formas se fundem — igualzinho ao português: conmigo, contigo, consigo. Nunca con mí nem con ti.
E existe uma exceção que derruba até quem já fala bem: depois de entre, según, excepto, salvo, incluso e hasta, o espanhol usa a forma de sujeito. É “entre tú y yo“, “según tú“, e não entre mí y ti.
Os pronomes átonos: me, te, lo, la, le
São os que substituem o complemento do verbo. O espanhol separa o complemento direto (quem recebe a ação) do indireto (a quem se destina) só na terceira pessoa — nas outras, a forma é a mesma.
| Pessoa | Complemento direto | Complemento indireto |
|---|---|---|
| yo | me | me |
| tú / vos | te | te |
| él / ella / usted | lo / la | le |
| nosotros | nos | nos |
| vosotros (Espanha) | os | os |
| ellos / ellas / ustedes | los / las | les |
Exemplos lado a lado, para a diferença ficar visível:
- ¿Viste a Marta? — Sí, la vi ayer. (direto: eu vi ela)
- ¿Escribiste a Marta? — Sí, le escribí ayer. (indireto: eu escrevi para ela)
Quando os dois pronomes aparecem juntos, o indireto vem primeiro — e le/les vira se antes de lo, la, los, las. Não existe le lo:
- ❌ Compré el libro y
le lodi a mi hermana. - ✅ Compré el libro y se lo di a mi hermana.
Onde colocar o pronome (e por que “chamo-me” não existe em espanhol)
Esta é a interferência mais teimosa do português, porque no Brasil escrevemos “chamo-me”, “sente-se”, “diga-me”. Em espanhol, com verbo conjugado o pronome vem sempre antes, colado à frente:
❌ Llamo-me Marcelo. Sienta-se, por favor.
✅ Me llamo Marcelo. Siéntese, por favor.
O pronome só vai para depois do verbo — e grudado nele, sem hífen — em três casos:
- Imperativo afirmativo: Dímelo. Levántate. Siéntese. (mas no negativo volta para a frente: No me lo digas)
- Infinitivo: Quiero verte. — que também aceita Te quiero ver, com o mesmo sentido.
- Gerúndio: Está lavándose. — ou Se está lavando.
Onde o português atrapalha
Os cinco erros que mais aparecem na boca de brasileiro:
❌ Tú es profesor. · ❌ Para mim es difícil. · ❌ Quiero ir con ti. · ❌ Entre mí y ti. · ❌ Yo pienso que yo tengo razón porque yo lo vi.
✅ Tú eres profesor. · ✅ Para mí es difícil. · ✅ Quiero ir contigo. · ✅ Entre tú y yo. · ✅ Pienso que tengo razón porque lo vi.
Esse último merece um parágrafo. O espanhol, como o português europeu, omite o pronome sujeito na maior parte do tempo — a terminação do verbo já diz quem fala. O brasileiro, acostumado a repetir “eu” o tempo todo, enche a frase de yo e soa estranho. Use o pronome sujeito só para dar ênfase ou desfazer ambiguidade: “Yo no fui”, quando alguém precisa saber que não foi você.
Pratique agora
Complete com o pronome correto:
- _____ llamo Ana y este es mi hermano. (eu me chamo)
- Señora García, ¿_____ gusta el flamenco? (à senhora)
- Este café es para _____. (para mim)
- ¿Quieres venir _____? (comigo)
- Compré flores y _____ _____ di a mi madre. (dei elas para ela)
- Entre _____ y _____ no hay secretos. (entre você e eu)
Ver o gabarito comentado
1. Me llamo Ana — verbo conjugado, então o pronome vem antes. Nada de llamo-me.
2. le gusta — usted usa o pronome de complemento indireto le, igual à terceira pessoa.
3. mí — depois de preposição, yo vira mí, com acento para distinguir do possessivo mi (meu).
4. conmigo — con + mí se funde numa palavra só.
5. se las di — o indireto viria primeiro (le), mas antes de las ele obrigatoriamente vira se.
6. tú y yo — a exceção de entre, que pede a forma de sujeito e não mí/ti.
O resumo que vale levar
Se você guardar só quatro coisas deste post, guarde estas: usted leva verbo em terceira pessoa; vosotros é coisa da Espanha; com verbo conjugado o pronome vem antes; e depois de preposição é mí e ti, exceto depois de entre e según.
Agora conta aqui nos comentários: qual desses cinco erros você já cometeu? O “para mim” costuma ser o campeão — e não há vergonha nenhuma nisso, é o preço de falar duas línguas parecidas demais.




3 Comentários